Na trigésima parada eu sinto o meu corpo cansado e minha mente exausta. Mas o primeiro atento e a segunda forte. Eu vou em pé, mas vou firme. Finco meus pés no chão e não tem barriga, peito ou braço alheio que consiga me empurrar pra cima do passageiro sentado. Ainda pisam no meu calcanhar, mas agora eu viro o pescoço pra entender — não com a raiva silenciosa que me tomava inteira, mas com a segurança de quem confronta as causas da própria dor. O balanço das curvas dobrando a esquina já não me desequilibra. A essa altura do trajeto, me agarro na barra de ferro amarela coberta por sebo e sujeira decidida a abraçar o caos. Não tenho mais tempo de temer a morte, muito menos de temer a vida. E amanhã há de ser outro dia.

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